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| DANIEL THAME - 08/04/2009 |
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Dizem que político só é solidário na crise. Nos tempos de bonança é cada um por si e já que é bonança mesmo, alguns não se furtam (!) em desviar uma parte para o próprio bolso. Mas, bateu a crise e o dinheiro começa a escassear até para as despesas básicas, como pagamento dos servidores e manutenção dos serviços de saúde, educação e limpeza; e começou a gritaria. E que gritaria! O prefeito de Potiraguá, Olyntho Moreira (PP), ao se deparar com os cofres vazios, chegou a anunciar que iria renunciar ao cargo três meses depois de ter assumido o comando do Executivo. Depois, renunciou à renuncia, mas seu grito de alerta serviu para provocar uma reação em cadeia que deve desaguar numa grande marcha de prefeitos baianos à Brasília, prevista para o próximo dia 28 de abril. Nesse dia, as 417 prefeituras baianas ameaçam fechar as portas, desde que obviamente todos os prefeitos decidam aderir ao movimento, coordenado pela Associação das Prefeituras da Bahia (UPB). Na prática, dezenas de prefeituras, a exemplo da já citada Potiraguá, já estão com as portas fechadas, visto que não dispõem de recursos para atender às demandas da população. A situação é ainda mais grave (gravíssima, melhor dizendo) nas pequenas cidades, onde o Fundo de Participação dos Municípios é a principal fonte de receita e a prefeitura a principal empregadora. Sem recursos e sem salários = igual economia parada. E como desgraça pouca é bobagem, centenas de prefeituras estão inadimplentes com o Governo Federal e impedidas por lei de receberem repasses de convênios. Para estas, existe a expectativa de uma Medida Provisória salvadora, que permita renegociar os débitos em condições camaradas e voltar a receber recursos. É um paliativo, mas para quem está com fome, farinha de quinta categoria vira caviar. A crise nas prefeituras é o resultado perverso da redução do IPI, uma das medidas adotadas pelo presidente Lula para manter a produção, incentivar a indústria e o comércio e reduzir os impactos da crise mundial no país. Ganha-se de um lado, perde-se do outro. E entre os perdedores estão as prefeituras. Como não dá para simplesmente fechar as portas, visto que é nos municípios que são prestados os serviços essenciais, os prefeitos querem arrancar dinheiro do Governo Federal. É “arrancar” mesmo, porque o próprio Lula tem declarado que, até a crise passar, os municípios vão ter que apertar os cintos. Resta saber se, com a situação de agravando a cada dia, ainda haverá cinto a ser apertado. No mais, gritar é um direito legítimo e a situação está a exigir mobilização mesmo. E esperar a Marcha dê mesmo algum resultado prático e não sirva de pretexto para a velha e boa mordomiazinha de sempre na Brasília de todos os pecados e todas as possibilidades. Afinal, a crise é brava, mas ninguém é de ferro. Pelo menos, nem todos são.
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| DANIEL THAME - 07/04/2009 |
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Trava-se nos últimos dias uma batalha, que beira a insanidade, para apontar quem é o responsável pelo caos que se instalou no sistema de saúde pública em Itabuna e que gerou, entre outras conseqüências graves, uma epidemia de dengue de proporções bíblicas, com casos contados aos milhares e mortes de crianças, jovens adultos e idosos. Uma epidemia que deu a Itabuna o título nada honroso (na verdade trata-se de um título vergonhoso) de Campeã Nacional de Dengue. Enquanto a dengue não dá sinais de refrear, as unidades de saúde funcionam (?) sem médicos e enfermeiros e os remédios escasseiam; e na Central de Regulação as guias de exames e consultas relativas ao mês de abril se esgotam num único dia, gasta-se energia num tiroteio verbal inútil. A Prefeitura diz que a culpa pela situação é do Estado, que por sua vez atribui a culpa à Prefeitura. É fato que, a partir da explosão da epidemia de dengue, a Secretaria Estadual de Saúde não poupou esforços e investimentos. Os repasses para o Hospital de Base foram ampliados em 500 mil reais/mês e para a Santa Casa em 750 mil/reais mês. O Hospital São Lucas foi reaberto com um setor especialmente destinado aos casos de dengue e foi implantado um Posto de Atendimento na 7ª. Dires, também para atender vítimas da doença. Médicos do Exército, do Rio de Janeiro e até da Venezuela foram deslocados para Itabuna para cooperar no combate à doença. É fato também que, se retardou o trabalho de prevenção e minimizou uma situação que já se mostrava gravíssima desde os primeiros dias de governo, talvez com o intuito de se viabilizar a realização de um carnaval fora de época em todos os sentidos, a atual administração municipal herdou uma espécie de “bomba relógio”, que iria explodir de qualquer maneira. A epidemia de dengue é fruto exclusivamente da ausência de prevenção, notadamente nos últimos dois anos. E prevenção, como se sabe, não se faz em um mês ou dois. Demanda tempo, dinheiro, planejamento. Dispensa-se o tiroteio, a caça às bruxas. A população de Itabuna, a principal prejudicada, não pode continuar sendo vítima de um sistema de saúde pública inoperante, caótico e incapaz de atender as demandas por um serviço essencial. Até quando continuaremos produzindo vítimas fatais por conta da irresponsabilidade e da má gestão dos recursos públicos? Quantas vidas ceifadas ainda serão necessárias para que a saúde seja tratada como prioridade e que os recursos sejam aplicados corretamente? Se nada for feito, em nível de prevenção, Itabuna é séria candidata ao ainda mais vergonhoso bi-campeonato nacional de incidência de dengue em 2010. Enquanto houver muita falação e pouca ação, continuaremos habitando uma cidade em que em vez de um sistema de saúde pública, somos obrigados a conviver (melhor seria dizer, sofrer) com um sistema de doença pública. O mosquito da dengue agradece. A população, muito pelo contrário. |
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| DANIEL THAME - 03/04/2009 |
| Ezequias, um mártir da irresponsabilidade |
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Ezequias Oliveira Santos viveu seus primeiros -e únicos- cinco anos de vida num lugar de nome sonoro, chamado Jóia do Almada, bairro da periferia de Coaraci, cidade do Sul da Bahia que conheceu seu apogeu quando um certo fruto valia ouro e que hoje enfrenta a decadência explícita, arrastada no vendaval que se seguiu a uma doença de nome quase obsceno chamada vassoura-de-bruxa. A lei das probabilidades indica que Ezequias iria crescer e seguir sua vidinha sem sobressaltos na cidade em que nasceu. Uma daquelas vidas que passam ao largo de qualquer registro para a posteridade, mas nem por isso são menos dignas. Com um pouco de sorte, quem sabe Ezequias poderia romper os limites de Coaraci, e alçar vôos mais altos. Itabuna, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo. Outros países. Ezequias poderia ser um professor, um médico, um advogado, um engenheiro, um arquiteto, um profissional liberal, um empresário. Um político diferente, desses que se preocupam mais com o bem estar do povo do que rapinar os cofres públicos em benefício próprio. Tão raros que a gente precisa fazer um esforço sobre-humano para localizá-los. Ezequias poderia dar um drible espetacular no destino e se tornar jogador de futebol, craque da Seleção, decidir uma Copa do Mundo de 2026 para o Brasil. Ezequias, fadado pela ordem natural das coisas a ser apenas um sujeito comum, mas que poderia ser tanta coisa, não poderá ser mais nada, pelo simples fato de que é apenas uma criança enterrada num cemitério modesto, enquanto seus pais, familiares e amigos choram sua morte recente. Ezequias é mais uma vítima da dengue, doença que assola o Sul da Bahia e que em sua forma hemorrágica já fez mais de duas dezenas de vítimas fatais. Não, Ezequias não é vítima somente da dengue hemorrágica, o que por si só é grave, visto que esse tipo de doença ocorre basicamente porque os recursos na prevenção não são utilizados corretamente. Ou, para ser mais explícitos, são desviados. Ezequias é também vítima de um tipo de irresponsabilidade que quase nunca é punida, um misto de omissão e descaso. O caso de Ezequiel beira o inacreditável, não fosse o setor de saúde pública pródigo em produzir coisas inacreditáveis. Por três vezes ele foi levado por seus pais ao Hospital Geral de Coaraci. Por três vezes, os médicos diagnosticaram (?) amigdalite. Mandaram que a criança fosse levada para casa e medicada com remédio para inflamação na garganta. Não era amigdalite. Era dengue hemorrágica. Na quarta e derradeira vez que foi levado ao hospital, não havia mais o que fazer. Ezequias Oliveira Santos, 5 anos de idade, morreu sem poder descobrir o que havia além de Jóia do Almada. Seu horizonte (ou a completa ausência dele) é um buraco no chão, um mergulho no desconhecido, que para alguns é o renascer para uma nova vida e para outros é o fim. Seu horizonte é horizonte nenhum. Mais do que estatística, Ezequias é um mártir. Não propriamente um mártir da dengue, mas necessariamente um mártir da irresponsabilidade. Ninguém será punido pela morte de Ezequias. Ninguém será punido por tantas e tantas mortes que poderiam ser evitadas. Daniel Thame |
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