O Sétimo Céu . . .
O povoado de 1938/39, já mostrava alguma dificuldade de moradia. As repúblicas, em número reduzido, foram substituídas por fundos de lojas e armazéns, com refeições realizadas nas inúmeras pensões que logo começaram a surgir. O primeiro andar do sobrado onde funcionava a tradicional loja “A Carioca” em plena praça, foi dentre todas, a mais famosa república, e conhecida da população como Sétimo Céu com sua tradicional escada externa, no lado direito do prédio. Residiam ali conhecidos rapazes da vila, considerados de fino trato como: Alberto Azis, Deusdeth Dias de Carvalho (o Dió do Ouro), Raimundo Benevides, José Meleira, Gilberto Santana, Gentil Figueiredo, Miguel Passinho e Almir, sobrinho de Elias Leal.
Nos finais de semana crescia o movimento, num sobe-e-desce sem fim em seus degraus. Sempre bem vestidos, engravatados, com sapatos impecáveis, alguns de duas cores, saíam para aproveitar a noite só retornando ao raiar do dia, vindos de alguma fazenda próxima ou de misteriosos subterfúgios que só alguns conheciam.
A fama do sétimo céu foi diminuindo à medida que seus moradores iam constituindo famílias, e suas dependências logo aproveitadas para outras atividades. Em 1952 e 1953 serviu de espaço para as primeiras aulas do curso ginasial, enquanto o Ginásio era construído. Posteriormente serviu de estúdio do serviço de alto-falantes “A Voz da Liberdade”.
A chegada do Banco do Brasil e de Gildarte Galvão
Em 1949, o Banco do Brasil tirou da empresa Correia Ribeiro, tradicional firma compradora de cacau e bancária, a Carteira de Cobrança de Duplicatas de Coaraci, Itapitanga e Pouso Alegre, nomeando para a função o Sr. José Augusto Quadros de Oliveira, ficando em poder do mesmo e de seu legítimo sucessor, o Sr. Enéas Brandão, até a definitiva instalação do Banco, mantendo inclusive, o Sr. Jugurta Freitas como contador.
José Augusto, passando por Pouso Alegre teve a atenção despertada por um jovem rapaz, à frente de uma inexpressiva loja de tecidos, chamava-se ele Gildarte Galvão Nascimento, trocaram idéias e após consolidar boa amizade e adquirir confiança, José Augusto sugeriu-lhe transferir seu comércio para Guaraci, sugestão aceita por Gildarte.
Sapataria seria a sua nova atividade, principalmente por não existir esse tipo de serviçona região, Gildarte providenciou a vinda de uma experiente mão de obra da região de Jequié, instalando um movimentado comércio, misto de sapataria e loja, a “Sapataria Galvão”.
De inicio Gildarte se instalou, onde hoje existe a Farmácia Vicka, antes de transferir-se para um imóvel construído por Jácomo Góes em frente a atual Câmara de Vereadores.
Sua produção de sapatos floresceu rapidamente, e não tardou muito, a serem vistos caminhões chegarem, de carga fechada em sua sapataria localizada em plena rua Rui Barbosa, trazendo todos os tipos de equipamentos necessários à sua indústria.
Não eram poucas as vezes que fazendeiros chegavam e sua sapataria, especialmente entre setembro e outubro, acompanhados de seus filhos para confecção de sapatos, já se preparando para os festejos natalinos.
Por volta de 1946 Gildarte inaugurou uma grande e importante livraria, a Livraria Galvão, próximo a Praça Getúlio Vargas, onde funciona atualmente a loja de Waldo Matos (administrada por seu filho), tendo como gerente o Sr. Pedro Pereira. Pouco depois de 1953 a livraria fora desativada.
Gildarte Galvão posteriormente enriqueceu a arquitetura coaraciense com a construção de um palacete de dois pavimentos e garagem numa esquina da Rua J. J. Seabra com a rua Juvêncio Peri Lima, em frente ao atual Bradesco, tinha forte vocação política e mesmo sendo batista, na época com fortes divergências com os católicos filiou-se ao PTB visando a prefeitura em 1958, percorrendo diversas regiões do município em busca de apoio, fazendo inclusive de Itamotinga seu principal reduto. Perdendo para Jário Góes, um vasto prejuízo financeiro o abalou fazendo com que se desfizesse de sua residência. Mais experiente e cauteloso, Gildarte voltou a disputar as eleições em 1962, desta vez saindo vitorioso. Foi o terceiro prefeito de Coaraci.
Por volta de 1956/57 sua sapataria, quase sem oficiais, vinha apresentando visíveis sinais de decadência, e agravada com os novos ideais de Gildarte. Crescia a preferência do povo pelos produtos expostos nas vitrines das lojas da cidade e sobretudo das lojas de Itabuna.
Completando seu mandato à frente do Executivo Municipal Gildarte se mudou para Ilhéus com sua família e assim diminuía a sua presença nas ruas de Coaraci. Sua antiga e imponente mansão, fora adquirida e demolida pelo Bradesco que pretendia construir uma grande agência bancária, fato que nunca se consolidou, causando um grande prejuízo pra a história e para o aspecto físico da cidade.
A rua 1º de Janeiro
A vila manteve-se por cinco anos com o nome de Guaraci período beneficiado pelo grande número de famílias e comerciantes que chegavam, compravam, alugavam ou construíam suas casas. Eram construções, em sua grade maioria, sem nenhuma técnica o que deixava as ruas com um aspecto desagradável. As dimensões da praça Getúlio Vargas foram mantidas ao longo da história, embora o desenho do jardim tenha sofrido diversas alterações. Vários comerciantes tinham suas lojas espalhadas pelo zona central de Guaraci, alguns desde a fase de Macacos, atraídos pela força do Cacau.
Um fato tornou-se rotina na história do passado de Coaraci. O grande número de caminhões de mudança que chegava entre 1938 e 1955.
Com o término das obras da praça, em 1936 e da ponte em 1942, prostitutas que até então se espalhavam por diversos locais, especialmente rua do cacau e adjacências passaram a se concentrar no início da ruinha de José Ramos, um lugar privilegiado, ao lado de um campo rústico onde se praticava futebol, por isso conhecido como rua do Campo. A rua foi posteriormente denominada 1º de Janeiro. A prostituição por lá se instalou, onde permaneceu por mais de quarenta anos, quando o próprio tempo se encarregou de extingui-la. Em todo esse tempo, muitas famílias mantinham-se receosas de circular pelas redondezas, devido a presença destas mulheres. O grande movimento registrado no município durante as madrugadas dos anos 40 e 50 estava em torno da rua 1º de Janeiro e adjacências.
O primeiro motorista do Povoado
Ernesto Sá Feitosa chegou entre nós por volta de 1935 atraído pelo que ouvia a respeito de Itacaré como produtor de cacau. Ao chegar, constatou ser verdade tudo que ouvira sobre o povoado e constituiu-se num dos primeiros motoristas a transportar cacau para firmas exportadoras em Ilhéus, ele que é pai da professora Maria Leda Feitosa e das Sras. Damiana, Maria das Graças e de Ernesto Filho e Luiz Antônio César.
Ernesto foi inicialmente motorista da Policia Militar de Pernambuco e transportava tropas policiais dentro do estado, ele foi amigo de infância de Virgulino Ferreira, o Lampião, este que quando já bandido mandou-lhe recados desaforados, fazendo com que Ernesto viesse para o sul da Bahia.
Logo em uma das suas primeiras viagens deu carona a um cidadão, sem destino definido, que acompanhou Ernesto em direção ao povoado, que conhecia apenas pelo nome. Esse cidadão chamava-se Antônio da Silveira, que estava a procura de algum lugar onde pudesse trabalhar como alfaiate, e não mais como oficial ajudante. Os dois foram grandes amigos, Silveira instalou sua alfaiataria na Praça Getúlio Vargas e antes de ocupar o local onde permanece até hoje, ocupou dois outros imóveis, todos na rua Rui Barbosa.
Em agosto e setembro de 1950 foi registrado o maior número de encomendas em toda vida como alfaiata, não apenas motivados pelos festejos natalinos, mas em decorrência das eleições gerais de 3 de outubro, quando a maioria dos eleitores fazia questão de votar de terno novo.
Ernesto e Silveira logo se tornaram grandes incentivadores do futebol de Coaraci.
Água para o povo de Guaraci
A vila de Itacaré crescia dia após dia, e já era a vila de Guaraci, e estava exigindo um abastecimento de água alternativo, já que a do rio, cada vez mais distante, e prejudicada pelo elevado número de lavadeiras que de se utilizavam. É aí que surgem os irmão Aristóteles Pereira Barbosa (pai de Mamigo) e Benedito, nascidos próximo a Garganta, e que se dedicaram à construção de cisternas. A longo dos muitos anos de trabalho, nunca tiveram a menor idéia de quantas construíram. Era um ofício extremamente incômodo, pesado, que exigia altas doses de periculosidade.
Graças ao trabalho desses bravos e incansáveis irmãos, Coaraci sempre esteve livre de epidemias ao longo de sua história. Com a chegada dos recursos da água tratada, algumas cisternas foram conservadas, outras não e Aristóteles ainda teve forças para enfrentar os rigores de um conhecido garimpo de ouro em Serra Pelada, no distante estado do Pará.
A chegada de José Augusto e sua gente em Itacaré, em 1937 trouxe um grande surto desenvolvimentista, as notícias de trabalho garantido logo se difundiram pelas mais distantes regiões do estado, e toda mão de obra era rapidamente absorvida pelos fazendeiros e pelo comércio que crescia a cada dia para atender à grande clientela, com destaque para o mercado de tecidos, de calçados e de secos e molhados.
Resumo:
Com o desenvolvimento crescente surgiram os pensionatos para a morada dos jovens que vieram trabalhar no comércio de Coaraci. A sociedade precisava de água potável e dois coaracienses ilustres perderam as contas das cisternas que abriram. Para o transporte de cargas o primeiro motorista foi Ernesto Sá Feitosa que levava o Cacau até Ilhéus. Para o crescimento da cidade agências bancárias foram se instalando a exemplo do Banco do Brasil. |