A História do Circo em Nossa Cidade
Na história do município de Coaraci, a magia do circo sempre esteve presente. A alegria dos palhaços, as mágicas fantásticas, o globo da morte. É uma pena que hoje em dia o circo esteja tão desamparado. A Tv, o vídeo e o DVD, o cinema moderno, a Internet, tudo isso tem desvirtuado a existência da arte circense.
Por Coaraci já passaram diversas companhias circenses, como por exemplo: D`Itália, Das Feras, D`Mônaco, dentre diversas outras. Porém a mais marcante deve ter sido a Companhia Nerino. Principalmente com a presença do palhaço Picolino ao qual citamos a seguir.
Os lugares onde se instalavam os circos, hoje podem ser considerados inusitados, mas eram armados no local onde hoje é o Estádio Barbosão, no local onde hoje é a Rodoviária, na Praça Jário Góes e até mesmo no terreno onde hoje é o Banco do Brasil. Atualmente os circos se instalam num terreno da prefeitura situado à Av. Joana Angélica, ao fundo do Ginásio de Esportes. Acompanhe abaixo a Trajetória do Palhaço Picolino, que teve um de seus principais momentos em nossa Coaraci.
A história de Roger Avanzi “O picolino”
Aos quase 90 anos, Roger Avanzi reside no eixo Rio-São Paulo e atua no teatro profissional. Roger, um palhaço de circo que nasceu sob a lona, se comove quando vai ao palco do teatro, e, com o olhar umedecido, pergunta aos que vão felicitá-lo no camarim da peça se há crianças na família. "Se precisar de um palhaço, sou o Picolino..."
Filho de Armandine Ribolá, trapezista francesa que conheceu seu pai, Nerino Avanzi, quando ambos trabalhavam no Circo Chileno, Roger adora contar histórias, que lhe vêm à mente com impressionante riqueza de detalhes. Todas elas estão reunidas no livro Circo Nerino: uma Odisséia Brasileira, escrito por Verônica Tamaoki, e que reúne 200 fotos (inclusive de Pierre Verger), cartas e depoimentos de gente do Brasil inteiro que jamais esqueceu o que viu sob a lona.
Nele, Roger conta sobre seus avós paternos, que vieram da Itália com uma Companhia de ópera e acabaram como zeladores do antigo Teatro Polytheama, no Vale do Anhangabaú. Morando debaixo do palco, seu pai cresceu assistindo, pelas frestas, espetáculos teatrais, musicais e circenses. Passou a infância "brincando de circo" com a molecada da vizinhança e, depois de iniciar a carreira no Circo Chileno, fundou, em 1º de janeiro de 1913, em Curitiba, o Circo Teatro Nerino, no qual Picolino foi astro durante 52 anos ininterruptos, viajando pelo interior do Brasil e até pelo Peru.
Ainda bebê, Roger estreou como ator. "Apresentávamos pastelões no estilo `toma que o filho é teu' e eu era o filho", conta ele, dando risada. Maiorzinho, passou a fazer figuração. Aos 13 anos, substituiu o ator que interpretava personagens mais velhos, como coronéis e almirantes. Daí para galã da companhia, foi um passo. "Nossa Senhora, namorávamos muito! Os rapazes ficavam com ódio da gente..."
A vida de conquistador acabou quando ele conheceu Anita - equilibrista, atriz e filha de um dos donos do Circo Garcia - e se casou em março de 1948, no Recife. "Parecia casamento do presidente da República. Me apaixonei por ela quando minha mãe disse que nascemos no mesmo dia", emociona-se. Dona Anita é uma simpática senhora que traz os mesmíssimos olhos amendoados e doces que ficaram impressos na fotografia do casamento.
O Maior desafio da Carreira foi em Coaraci
Já casado, aos 32 anos, ele enfrentou o maior de todos os desafios da carreira: interpretar Picolino. "Foi em Coaraci, na Bahia. Eu tremia feito vara verde, suava em bicas. Lembrava do meu pai, que na estréia ficou tão nervoso que fugiu do picadeiro, mas, em vez de sair pelos fundos, saiu pela frente e foi perseguido por uma turma de estudantes", conta. Vencido o medo da estréia, ele trabalhou por quase 40 anos. Segundo registros o Circo Nerino passou por Coaraci na década de 50 em duas temporadas, a primeira em 1954 entre 12 de outubro e 9 de novembro e a segunda em 1959 entre 10 de março e 21 de abril.
A vida circense e o Fim do Circo Nerino
Hoje, apesar das saudades, nem mesmo ele entende como a família agüentava viver viajando. "Monta, desmonta, vai pra cá, vai pra lá, agüenta sol do Piauí, chuva do Rio Grande... o circo é para quem tem mocidade". As viagens pelo norte e nordeste foram um conselho de um amigo dos pais, que trabalhava no Lloyd Brasileiro, como melhor alternativa para fugir dos temporais do sul. "O povo sulista está acostumado, mas não há circo que agüente aquele Deus-nos-acuda", explica. Numa dessas andanças, na Paraíba, um senhor veio pedir que deixassem seu filho de 11 anos tocar acordeon durante a função. O menino arrasou. Chamava-se Sivuca. E o compositor Alceu Valença, também ainda criança, jamais esqueceu a primeira mulher que viu de maiô: a trapezista do Circo Nerino.
Depois de anos alugando casas por temporada ou quartos em hotéis para seus artistas, o Circo Nerino comprou meia dúzia de ônibus e tornou-se a primeira Companhia a morar em traillers no Brasil. "Copiamos o pessoal do Circo Bouglione, francês, que conhecemos no Recife, em 1951". A amizade com o Bouglione, que dura até hoje, começou quando o Nerino cedeu o ótimo terreno onde estava, no centro da cidade, para que os estrangeiros pudessem se apresentar. E o mestre de cerimônias foi o próprio Roger, que usou um pouco do francês aprendido com a mãe. "Junto com os ônibus também compramos tratores e caminhões basculantes, porque as poucas estradas que havia eram péssimas. Tínhamos que alargar vias e pontes e, muitas vezes, abrir caminhos para seguir viagem", recorda.
Escola - A vida nômade não possibilitou os estudos. "As primeiras letras aprendi com o Francisco Colman, que anos depois viria a fundar a primeira escola de circo do Brasil, a Academia Piolim de Arte Circense, em São Paulo, onde fui professor por cinco anos. Depois fiz o Ginásio por correspondência, mas não tive tempo de fazer as provas finais". Diante da vida riquíssima e feliz, os estudos parecem ser um detalhe. "O circo é uma grande família", afirma Roger, que viveu esta frase ao pé da letra: passou a vida inteira ao lado dos pais e, assim como a irmã Ivone, casada com um acrobata, também criou os filhos no picadeiro. "Eu dizia para a minha mãe que era tão feliz que não podia ser mais", relembra.
Em setembro de 1964 o Circo Nerino foi armado pela última vez, em Cruzeiro (SP). Dois anos antes, morria seu fundador e palhaço principal. "Não dava pra continuar, ele era o cabeça", diz Roger. Ao lado da mãe e do tio, juntou-se ao Circo Garcia, como Picolino, durante sete anos. Depois, vieram a Escola de circo e as apresentações em festas infantis. Hoje, Roger rouba a cena no Jardim das Cerejeiras como o mais convincente personagem da encenação. Afinal, com a escola que teve, Chekhov não tem mistérios.
Cora Ronái num artigo no jornal O Globo cita que “Ouve um tempo, acreditem, em que não havia televisão; houve tempo, até, em que não havia sequer rádio ou cinema. As pessoas se distraíam lendo, contando histórias, fazendo a sua própria música. Iam ao teatro, quando havia teatro, e às apresentações das bandas nos coretos. Praticamente não havia cidade digna do nome sem uma banda e um coreto.
Mas a grande diversão, a festa que transformava a paisagem e alegrava os corações, era o circo. É difícil imaginar, no nosso mundo de entretenimento instantâneo e ininterrupto, o que representava a chegada do circo, sobretudo nas pequenas cidades do interior. A verdade é que já não há espetáculo, por grandioso que seja, capaz de superar, em impacto, a presença alegre da lona, que atraía igualmente a todos. O circo era a quebra da rotina, o grande assunto, a mágica que superava a imaginação. Não era à toa que o palhaço era ladrão de mulher, e que tanta gente fugia com o circo.
Durante 52 anos, entre 1913 e 1964, utilizando todos os meios de transporte imagináveis, o Circo Nerino, "o mais querido do Brasil", viajou pelo país, armando a lona onde fosse possível, de largos e praças a terrenos baldios, passando até, em João Pessoa, por uma lagoa seca, abandonada pelos jacarés. Por precárias que fossem as instalações, porém, o público, fiel, garantia meses de aplauso, afeto e casa lotada.
Como tantos outros circos de cavalinhos, o Nerino nasceu da associação de meia dúzia de artistas, todos aparentados. Na época, circo ainda não era profissão que se aprendesse em escola especializada, mas destino de família; assim é que, pela árvore genealógica do Nerino, passam gerações de artistas, do palhaço Arrelia à atriz Renée de Vielmond. Licemar e Luciene Medeiros, da novíssima geração, nascidas já depois do Circo Nerino ter dobrado de vez sua lona, trabalham em Las Vegas, numa das equipes do Cirque du Soleil” .
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